lembrança.

Pretérito, presente e futuro se unem em um único instante. A dor de falar passa a ser imensurável.
Dor que é a soma do dor própria, causadas por ínfimas palavras do passado que nunca imaginaram-se serem tão cortantes, e a dor de outrem — que acaba por tornar-se dor própria — ao receber a ferida da espada de quem fora magoado.
A angústia gritante daquele que acredita em tudo que ouve; daquele que nunca duvidou das palavras de seu amado, e que tristemente começa a sentir-se obrigado a duvidar.
O amor remanescente dá passos arrastados, ensaia alguns pulos de alegria, mas cai novamente, afetado pelas profundas feridas que não se permitem sarar.

11/11/12

suíte de silêncios e memória.

Pode conter spoilers.

Esse livro de Marilia Arnaud foi como uma grande poesia pra mim, sincero, com belas metáforas e interpretações bem abertas. Transitando entre memórias de fases diferentes da vida de Duína, expondo a volatilidade que elas têm, o peso que geram em nós e a intensidade que nossa cabeça as atribui. A comparação com poesia implica também na dificuldade que tenho em me envolver, justamente pelo caráter abstrato, porém nesse livro não chega a pesar tanto.

A vida não é uma casa abandonada, da qual se podem remover os entulhos e pintar as paredes de branco. Quem esquece mata e morre.[…]

Com uma vida marcada pelo abandono da mãe, Duína se vê presa nesse silêncio, na experiência relembrada em outros abandonos que cedo ou tarde acontecem.

I knew that you were a truth I would rather lose
Than to have never lain beside at all
[…]
Love is watching someone die

Aproveitando a vibe do livro, lembrei do que tinha refletido sobre esse trecho de What Sarah Said do Death Cab for Cutie. Embora doa, o aprendizado que se tem com relacionamentos é algo incrível e nunca em vão. Talvez quando percebemos o valor do conjunto, com as coisas boas e ruins, vemos também que é melhor perder do que nunca ter tido. Que ver alguém morrer, nas mais diversas interpretações, faz parte dessa coisa complexa que é o amor.

Gostei bastante do livro e contente por ter algo de tão boa qualidade saindo da Paraíba. Esse ano foi lançada outra obra da autora, “Liturgia do fim”. Deixo aqui o link a quem interessar!

não pertencer.

Aqui estou eu em mais um loop autodepreciativo. Não sei porque nem como começou, mas está aqui, acontecendo, acompanhado de uma sensação de pessimismo, onde meus pensamentos me convencem de que tudo está tão ruim quanto penso que está, e vai continuar assim. Onde não sei mais porque comecei o que comecei, o que me faz continuar, se as pessoas que ainda falam comigo o fazem simplesmente por algum apego ao passado. Um grupo que acho que se desmanchou por descaso meu, ou simplesmente a vida acontecendo? Não, nada se desmanchou, eu que fui embora, eles continuam lá, firmes e fortes. E não há um novo grupo, só eu e mais dúvidas e fuga e tristeza.

Onde pareço estar andando por uma ponte de madeira mal construída, e entre os pedaços consigo ver o abismo que me aguarda. Estou na metade do caminho, tenho medo de voltar, tenho medo de continuar. Talvez eu tenha algumas ferramentas para remendar a ponte na minha mochila, mas não consegui ou não tive coragem de procurar. Além disso, o vento está forte, a ponte balança. À noite faz muito frio, de dia faz muito calor. Insetos sobem pela minha pele e me picam. Mas o maior impedimento fica na minha cabeça, e essa não tenho ideia de como remendar. Ela me faz pensar que devo procurar uma nova ponte, mas a cada segundo que passa, mais aumentam as chances de a que estou finalmente ruir, me lançando ao abismo. Não sei há quantos dias estou aqui, nem se avancei, sei apenas que é indiferente continuar ou voltar, o perigo é igual. Ninguém pode me ajudar, do contrário a ponte cai de vez. Em alguns momentos as intempéries não me abalam, em outros me fazem parar, sentar, e construir um muro de pedras ao meu redor. E quando tento negar esse comportamento, não me deixar deter, a tempestade cresce, o vento sopra mais forte, e meus fantasmas aparecem.

o menino, o monstro e relacionamentos.

Pode conter spoilers.

Cada vez que me passa algo na cabeça ou assisto algo bom, percebo que sou péssima em estruturar as coisas e explicar pra alguém. Quando paro muito pra pensar até que rola, mas dependendo do teor acaba sendo desgastante e sempre vou deixando pra depois.

Quando se trata de uma “review” aí que piora, eu acho. Enfim, Sam escolheu ontem um filme pra gente ver, fiquei meio de lado porque o gosto dele é um pouco diferente do meu, e quando ele chamou pra ver eu tinha acabado de decidir que ia ler mais um capítulo de O oceano no fim do caminho. Resolvi dar uma chance e começamos (remotamente porque sim, assistimos ao mesmo tempo mas não no mesmo local, coisas da vida).

O filme é uma animação, tá na Netflix e se chama O rapaz e o monstro, em inglês The boy and the beast, em japonês Bakemono no ko (achei a tradução feia, por isso coloquei menino no título). Mostra o crescimento de um menino que fugiu da “família” após sua mãe morrer e não saber onde está seu pai. Ele acaba encontrando uma fera que vagava pelo mundo humano e a segue, adentrando assim em outra dimensão, e se tornando pupilo do “monstro”.

Ao contrário de certas histórias de anime bobinhas, algumas tem uma profundidade incrível, até porque a cultura oriental é muito rica, e esse filme pra mim foi uma delas. O filme inteiro mostra como o outro sempre pode ser uma fonte de aprendizado, pois serve como um espelho no qual percebemos nossas diferentes nuances. Sei que à medida que se tem novas experiências nossos conceitos mudam, pra alguns a animação pode ser mais do mesmo ou não trabalhar o tema tão bem, mas pra mim foi realmente como um espelho, e é incrível perceber como até mesmo um desenho pode te ajudar a se conhecer. Cada um vê algo diferente, e nesse caso o que eu enxerguei me trouxe algo bom e que encaixa com coisas que tenho vivido e pensado.

Um dos momentos mais legais e que eu gostaria muito que tivesse sido mais explorado foi quando eles saem em uma jornada para conhecer sábios, e a cada um perguntam “o que é força?”. Todos respondem de uma forma diferente e Ren, ainda criança, se maravilha com a quantidade de significados que força pode ter. Enquanto isso seu mestre acha tudo bobagem e que ele deve encontrar seu significado sozinho. O menino, como pupilo, absorve tudo e tem muito interesse em aprender e ser forte. Por isso dá importância ao que ouviu, ao mesmo tempo que procura seu próprio significado. Cada um se mostra sábio na arte de ser quem é, e reconhecer isso permite entender qualidades e defeitos dos outros, assim como se observar em outras situações, entender a si mesmo, perceber seus pontos fortes e fracos e ser capaz de aceitar ajuda.

Como o Ren se interessa muito em aprender e cresceu fora do mundo humano, ao encontrar uma passagem para voltar, passa a frequentar a biblioteca, ao mesmo tempo que conhece uma garota da idade dele que o ajuda a se alfabetizar. Um dos momentos mais bonitos pra mim, em que o mundo se expande ainda mais pra ele e também cresce a conexão com alguém, a sensação de compreensão, ser capaz de ajudar e se deixar ser ajudado.

theboyandthebeast

Viver em um mundo cheio de “mestres” em ser eles mesmos implica também em desenvolver seu próprio significado para as coisas e seu próprio posicionamento, não se deixando levar por falsos ideais. Todo embate acaba se tornando mais uma forma de ter um reflexo de si, se posicionar, se reconstruir, aprender. De escolher não matar você nem o outro, mas reagir com a “espada no coração”.

Essa coisa de relacionamentos está sendo tão pesada pra mim esse ano que inclusive acho que os problemas de saúde que venho tendo são resultado do estresse disso, chega a ser assustador. Estou até lendo, ainda que esporadicamente, o livro Relacionamentos para leigos, que a princípio soa auto-ajuda e tal, mas achei o conteúdo relevante e honesto. Enquanto via o filme percebi muitos pontos em comum entre um e outro.

procrastinadora.

Ontem foi um dia particularmente tenso, e felizmente acabou dando certo. Trabalho incompleto, problema com a saúde, mas foi apresentado com sucesso. A professora aparentemente curtiu bastante. Daí no final da aula ela entrega as tão esperadas notas da prova que foi adiada infinitamente, e eu tirei 10, olha só. A professora que mais “odeio”, ficou me elogiando e dizendo pro pessoal que tirou nota ruim pegar dicas comigo. Logo eu, que desde que saí da prova senti que enchi muita da linguiça, e ao reler continuei vendo o mesmo. Acho que no fundo estou satisfeita, porém ainda duvidando, sem realmente acreditar nessa coisa toda. Vai que a máscara cai. Ou estarei sendo crítica demais comigo mesma? Não sei como conseguir uma avaliação realista, parece que estão todos sendo bonzinhos demais. O que sei é que poderia e posso fazer melhor. Acredito que o principal motivo pra eu desconfiar tanto é que a professora é uma legítima apoiadora de estudar ao infinito e além, qualquer tempo livre, etc etc, então não tenho ideia se a farsa sou eu ou ela. Ou todos. Como alguém desse tipo não perceberia algo feito às pressas, praticamente no mesmo dia? Ou seria apenas uma prova de que há formas e formas de fazer algo e ter o mínimo de sucesso? Na verdade, acho que me sinto sendo avaliada com o máximo, mas entregando apenas esse mínimo. Quero uma avaliação realística, um feedback digno. Deve ser isso.

Vi um post no blog da Leticia sobre o Wait but Why, com esse vídeo ótimo, e que me identifiquei bastante:

O que ele fala no final abriu meus olhos pra algumas coisas que não estavam muito claras pra mim ainda, inclusive deu vontade de imprimir o “calendário da vida” e colar na parede pra ter noção de tempo dentro do panorama geral, mas ainda tô pensando se não seria macabro demais ou sei lá.

Acho que acabaria gerando mais pressão. Ou ajudaria a ter uma visão melhor do que venho conquistando, e as possíveis mudanças de planos ajudariam a entender como eu mesma e as coisas têm mudado ao longo do tempo. Nem sei se deveria me preocupar em decidir se devo fazer isso ou não. Percebe o bug na pessoa? E não preciso nem comentar que estou procrastinando ao escrever esse post…